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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Café e cigarros

Café e cigarros



Ela saiu de casa cedo
Na mesa apenas um papel qualquer jogado
Em letras rápidas e trêmulas, poucas palavras:
“Vou indo, adeus... nos  vemos um dia desses”
Foi buscar novos caminhos, e eu apenas era a velha estrada...
Já trafegada e conhecida.
Ela precisava de novos ares e eu de oxigênio
Abri o jornal matutino, nada de novo
Um cigarro pendendo das mãos... é o que restava
Sobraram para mim apenas as lembranças.
A mesma cadeira, o mesmo espaço antes ocupado pela silhueta dela
A torneira que teimava em pingar mesmo com tudo isso
Na pia um copo; desses baratos, com restos de café...
Que ela tomou antes de partir para sua viagem.
Seus últimos restos mortais.
Visto um par de chinelos amarelados, rastejo até o sofá,
A janela ainda estava cerrada, provavelmente iria ficar durante o resto do dia.
Ligo a TV, nada além de besteiras, tomo um trago de qualquer coisa...
Acendo mais um cigarro, volto para cama
Entre uma tragada e outra, murmuro:

“Que tudo mais vá a merda...”

por Cleiner Micceno

domingo, 21 de outubro de 2012


Curta metragem  - O Caixão - de Cleiner Micceno





Dirigido por Cleiner Micceno


Elenco

MARIA AP. MARTINS Muié
EZEQUIEL OLIVEIRA Tonho

terça-feira, 27 de março de 2012

Monólogos internos

Dedicado a William Burroughs - " A linguagem é um vírus"



Dedos fluem no teclado barato, no serpentear dos dedos saem palavras como insetos que tomam formas monstruosas ao abandonarem  minha mente suja. Noite quente demais, nas paredes cartazes baratos de filmes antigos descolam, das divisórias escorre um suor pegajoso. O ventilador no teto segue birrento, sem muita força. Sons renitentes atravessam minha janela atrapalhando minha linha de raciocínio, desisto de tilintar nas teclas. Pego meu terno puído e meu chapéu de abas curtas, preciso respirar, sentir o ar fresco dessa noite imunda.  Saio porta a fora, tossindo meus pulmões que já não são mais os mesmos.  Acendo mais um cigarro, ergo a gola de meu casaco, mesmo com o  calor sinto calafrios. Observo a noite, está  mais escura que de costume. Os rostos não tem face, vejo insetos e mulheres, propagandas e pastores com suas bocas imundas falando do fim do mundo, mal sabem eles que o inferno é aqui mesmo na imundície de todos os dias. Bêbados chafurdam na lama, nas suas sarjetas de restos humanos sem perspectiva. Perspectiva é algo que o dia pauta de manhã e retira à noite junto com o tic-tac rápido dos relógios de ponto.  Pedaços de jornais voam em uma ascendente, levam juntos de si a sordidez das noticias forjadas, da pretensão de opiniões vazias e pautas, agora silenciadas pelo calor da noite e pelo vento brando, paginas sem valor, com prazo mais curto que a vida feliz dos comerciais de margarina. Respiro a fumaça dos escapamentos e regurgito meus pensamentos distorcidos. Sem caminho definido, todos são ruins na mesma proporção, sigo as setas, as luzes e o burburinho constante, meus olhos perderam o brilho morno da infância, só ganharam a sobriedade embaçada da velhice em um corpo ainda jovem. Sinto-me cansado, mas meus pés insistem em caminhar em frente, como se fossem autômatos. Sigo em linha reta.  Em meu percurso cruzo com vários andarilhos, como eu mesmo, com pensamentos confusos sobre a ofensa de se estar vivo. Olho os bolsos, tenho apenas o bastante para uma dose de brandy barato, talvez duas. Cada dose desce rápido, um alento cáustico para amortizar minha existência. As ruas me chamam, é uma longa jornada de volta. Pego outro caminho, não quero ver a reprise de meus passos. De volta ao quarto de cartazes desbotados e paredes úmidas, não tenho mais o sons que invadiam meu silêncio, mas, em toda quietude residente, meus pensamentos falham, as teclas silenciaram, o papel desertou de sua lavra. Minhas mãos recolheram suas presas, o único veneno que restou  está entranhado em minha própria alma...    

escrito por Cleiner Micceno

terça-feira, 5 de abril de 2011

Balada sangrenta. BEAT de uma nota só


Os canos de descarga dos carros lançavam tufos de fumaça na noite lamacenta, homens moribundos cambaleavam nas esquinas depois da maratona de botequins sujos e boates pouco recomendáveis, o neon desbotava a calçada cheia de manchas, putas , cafetões e traficantes baratos. O dinheiro escorria pelo esgoto, pelas veias dos viciados e pela gonorreia social. Nas buzinas a sinfonia noturna seguia seu caminho desesperado. Viam-se ao longe apenas espectros que outrora foram humanos, um solo de sax vazava de uma casa noturna, as notas caiam nas ruas como uma chuva fina de inverno, era só seguir a névoa feita pela fumaça dos cigarros e dos charutos baratos, comprados por dez pratas a dúzia. Um tiro era ouvido aumentando a sinfonia da urbe, era apenas mais sangue que escorria pelos becos, inundando os gatos mortos e os restos de mendigos esquecidos pela vida. Uma puta gritava ao longe. Sirenes cortavam a noite como uma faca afiada, os neons eram substituídos pelo giroflex bem menos glamoroso, mas tão decadente quanto. O letreiro de um sex shop piscava de forma irregular, espantando as mariposas que queriam se esconder. Nem a mortalha, as luzes ou a deterioração faziam o giro constante dos motores cessarem, como se o mundo fosse continuar em um moto perpétuo de degradação e loucura sempre no fio da navalha até as ultimas consequências. O barulho das garrafas que rolavam pelo chão batendo nos sapatos dos velhos carcomidos são apenas restos de vida, em ambos os lados. Os metrôs e os trens recomeçavam sua marcha frenética, os supostos homens de bem se desentocavam para mais uma manhã radiante, partindo de forma maquinal para sua marcha de morte. Os seres noturnos se recolhiam, se entocavam e entravam na sua hibernação foto fóbica á espera da próxima lua que ficava escondida pela fumaça e pelo alcatrão. Mais uma esperança de um gole que sobrava sempre no fundo do poço, e mais e mais brindes se levantavam em honra de coisa nenhuma. E uma chuva fina de notas musicais caía sobre a cidade assim que o dia terminava, e os canos de descarga dos carros lançavam tufos de fumaça na noite lamacenta...
Escrito por Cleiner Micceno

sexta-feira, 25 de março de 2011

pratos quebrados e corações partidos



Saia da minha casa! Julia disse gritando, um grito agudo como uma doninha encurralada guinchando.

- Ainda é cedo. Afirmei de modo lacônico como a ocasião pedia, mas nem tudo que falamos chega ao interlocutor da mesma forma que imaginamos. Então ela agilmente arremessa um prato em minha direção com a agilidade de um ninja daqueles filmes ruins de sessão da tarde, mas, por sorte ela não tem a mira deles e o prato passou zunindo pela minha cabeça e se chocou na parede da sala.

- Porra! Esse prato é a mais pura louça da china! Sei lá, acho que um dia isso queria dizer alguma coisa, mas não atualmente pelo que notei.
- Tem muitos mais de onde veio esse se você quer saber, minha mãe pegou uma promoção na loja de 2 reais!

- 1 e 99! Bradei como um pastor da igreja universal.
E a ninja do apartamento 22 recomeçou o ataque, ela arremessava cada vez com mais rapidez e para minha alegria, com pior pontaria.
- Mas meu docinho... Pulei para trás do sofá enquanto argumentava.
- Meu docinho a puta que o pariu! E ela arremessou com mais raiva ainda.
Com os pratos ribombando próximos de mim eu só imaginava quanto a mãe dela tinha de grana no dia que comprou os pratos, não é possível, não acabavam mais.
- Meu amor, vamos conversar como duas pessoas civilizadas! Gritei de minha trincheira atrás do sofá.
-Meu amor o cacete, vai falar isso para aquela vagabunda...
Ai eu me irritei. – Vagabunda não, ela é muito religiosa! Gritei isso e corri para meu abrigo anti-pratos.
- Ah claro santinha do pau oco, do pau e do oco pelo jeito! Achei isso uma coisa espirituosa. Vou usar algum dia.
- Mas você está tirando conclusões precipitadas... Disse no melhor tom que consegui encontrar. Os pratos pararam por alguns segundos, ela havia dado uma pausa, ou porque estava refletindo sobre o que eu disse, ou havia acabado finalmente a munição comprada pela sogra. Resolvi olhar de forma bem cuidadosa por cima de meu bunker. Coloquei os olhos por cima do sofá e vi uma caneca voar quase do meu lado. Droga agora começou a munição reserva.


Ela estava gritando alguma coisa impronunciável e entre um guincho e um arremesso e outro ela falava:
- Sa...fa...do , conclusão... precipitada ... filho da... puuuuuuttaaaaaaaa...
Entre esse lindo dialogo ouço alguém bater na porta de forma bem pouco educada e berrar.
- Polícia abra essa porta... Ou vamos arrombar...
Eu levantei com cautela. Ela estava na cozinha, provavelmente procurando mais presentes da mãe, para me jogar. E numa demonstração de agilidade Shaolin... Sim eu sei, tenho de parar de ver filmes ruins... Me adiantei e abri a porta arrumando os cabelos e tentando fazer a melhor cara possível.
- Boa tarde Seu guarda, o que podemos ajudá-lo?
Ele não foi muito gentil, abriu a porta num safanão e entrou com mais dois gorilas fardados.

- Ouviram gritos e muito barulho aqui no seu apartamento e nos chamaram para atender a ocorrência. O que esta acontecendo aqui?
Enquanto o policial falava ele analisava a situação da sala de guerra, era difícil dar uma desculpa decente.
- Estávamos treinando para o casamento judeu de um amigo nosso... Vocês sabem né sempre se quebram pratos em casamento judeu...


- É casamento grego que se quebra prato. Falou um dos gorilas.
- Como você sabe disso cabo? Perguntou o policial que me interrogou antes, ele devia ser o chefe da matilha.
- É que eu já fiz bico de segurança em um casamento grego. Falou meio sem jeito de forma meio envergonhada.
- E o judeu você quebra um copo, alguém pisa em um. Retorquiu o outro gorila que estava com arma em punho.
- E você como sabe disso? De novo o chefe.
- Ah trabalho de garçom em bufê nos dias de folga, sabe como é né, o soldo não é grande coisa né sargento.
- Que maravilha e nunca me convidam para essas coisas, vocês sabem que eu gosto de comidas exóticas...
Nisso a ninja do apartamento 22 sai aos prantos da cozinha e entra na sala correndo e chorando. Os policiais apontam as armas para ela, que para de supetão. Ela parara de chorar e com muita calma, já com as mãos erguidas no susto, começa argumentar polidamente com os policiais com a voz mais doce do mundo. Uma pequena pausa aqui, como uma mulher consegue acelerar de 0 a 300 em segundos e depois para 0 de novo como se fosse a coisa mais simples do mundo. Acho impressionante isso. Bem voltemos ao que interessa.

- Por favor policiais, desculpem terem perdido seu tempo, nós só estávamos tendo uma discussãozinha aqui...
- Por causa do casamento grego? Perguntou o cabo.
Ai ela caiu em prantos de novo.
- Que casamento grego que nada, esse filho da... mãe aí... peguei ele acariciando a filha da faxineira quando cheguei em casa...ela estava toda assanhada... se contorcendo enquanto ele estava com as mãos nas costas dela...
- Isso procede cidadão? Perguntou o sargento para mim com cara de desaprovação. Pô justo agora que já achava que tínhamos ficado amigos ele me chama de cidadão.
- Não foi bem assim capitão. Sempre bom aumentar divisas nessas horas. – Sabe como é, ela nem deixou explicar... A menina coitada saiu daqui correndo debaixo de tapa e nem tivemos tempo de nos explicar...
- Bom agora é uma boa hora... Disse o sargento ele deve ter gostado do capitão.
- Bem a pobrezinha tinha se enroscado nos enfeites pendurados, enquanto limpava a estante... E eu fui apenas ajudá-la, sabe como é né... Sou um cavalheiro.
- Você é um mentiroso! Gritou a ninja.
Pelo menos os ninjas da sessão da tarde são silenciosos.
- Claro que não meu doce de coco, é que você viu de um ângulo que não fazia jus a realidade e você se precipitou.
Ela estava emburrada e com cara bem pouco amigável. E a cumplicidade masculina, que é um dom divino, uma coisa como as leis da natureza, tão inerente a sobrevivência da espécie desde seus tempos imemoriais, veio em meu socorro.
- Bem então vamos fazer a reconstituição do suposto crime e tirar a prova disso já ...
- Como assim? Ela perguntou estupefata.
- Simples vamos reconstituir a cena e daremos o veredito, se ele está falando a verdade ou não. O sargento disse isso e olhou magnânimo com o rei Salomão.


- Soldado Tavares vá lá, você vai ser a filha da empregada...
- Pô justo eu sargento? E foi resmungando perto da estante.
- Vá lá você... Apontando para mim. – Fique onde você estava e coloque o soldado Tavares no lugar que a menina se enroscou... E a senhora ai vai lá para a porta, vamos organizar isso.
E lá fomos todos nós para os lugares, sendo dirigidos pelo Spielberg da Vila Mariana.
- Todos à postos?
-Sim. Gritamos em uníssono.
- Então... Ação! Ele tava levando isso bem a sério, me senti até o Tom Cruise.
O soldado Tavares tinha se enroscado em alguma coisa da estante para dar veracidade ao personagem e eu fui lá desenrosca-lo. Mas não acho que fiz bem o papel, faltava estímulo, sei lá, a filha da empregada era mais inspiradora. Bem me empenhei o melhor possível com o enredo e com o elenco presente, mas, acho que não ganharia um Oscar, acho que nem um Kikito. Pelo menos fui convincente, o diretor também não era muito exigente. A Julia, ou melhor, a ninja, viu de novo a cena e notou que a montagem era bem parecida com a original que ela presenciara meia hora antes e teve que capitular, e confessar que ela poderia estar enganada.
- É policial, acho que me precipitei mesmo... Confesso que realmente acho que exagerei...
- Sim senhora, mas é nossa função também tentar resolver as coisas da melhor forma possível, nem só de prender pessoas a gente vive.
- Tudo bem, agradeço ao senhor, eu ofereceria um café para compensar tudo que fez pela gente, mas acho que não tenho mais xícaras...
- Ah não temos luxo não pode ser em copo mesmo... Disse o soldado Tavares ainda se desvencilhando da estante, derrubando uns badulaques que foram presentes da mãe de Julia. Pensando nisso agora, será que essa velha só compra essas promoções?


Bem depois de uns dez minutos e um cafezinho em copos de plástico e uma caneca do Mickey que havia sobrado. Fui acompanhar os valorosos policiais até a porta, só ouvi o sargento falando no caminho para o elevador:
- Porra Tavares você tem que me avisar quando tiver mais desses casamentos gregos, pode me chamar para uns troianos também, não ligo não...
Fechei a porta e fui ajudar Julia a recolher os cacos no chão, ela estava bastante triste. Ela olhou para mim e veio pedir desculpas, me deu um abraço forte e eu falei:
- Calma docinho, está tudo bem, você não precisa ser tão impulsiva, tem que se controlar mais só isso.
- Eu sei, eu sei, você desculpa esse meu gênio terrível?
- Claro que sim, agora está tudo bem. Enquanto dizia isso eu estava imaginando onde seria a loja que a mãe de Julia achou a promoção de pratos, to meio sem grana e os pratos são resistentes... E também preciso ligar para a filha da empregada e marcar de ver a tatuagem que vai das costas até o meio das coxas, que ela ia me mostrar bem naquela hora que Julia chegou, afinal fiquei curioso.


Escrito por Cleiner Micceno

quinta-feira, 17 de março de 2011

Irritação, aspirinas e escadarias

escada Dia maldito. Pensei comigo. Já estava subindo o terceiro lance de escadas. O prédio estava, mais uma vez essa semana, sem energia elétrica. Pelo menos moro no quarto andar. Pior é seu Zico que mora no décimo quarto, acabei de vê-lo na padaria com três sacolas. Pensar nisso me alegra um pouco, me ajuda a subir. Um sorriso maroto escapa de minha boca imaginando o velho tendo de subir tudo isso todo ferrado.

Sei que isso parece errado, ainda mais com toda essa baboseira de politicamente correto por ai , mas foda-se, meu único momento de triunfo essa semana é saber que consegui ser melhor que um velho de sessenta e sete anos e ninguém tira isso de mim. Já estava quase morrendo na escada quando cheguei a porta que dá acesso ao meu andar,  ai passa o velho Zico, atrás de mim com todo vigor e ainda me cumprimenta alegre:

- Olá vizinho, um pouco de exercício sempre é bom né? E sobe cantarolando uma música dessas que são horrendas mas que grudam na cabeça. Eu fiquei lá, pasmo , esgotado e ouvindo o filho de uma boa puta subindo cantando algo como “o movimento é sexy, o movimento é sexy...”

- Desgraçado, você pelo menos podia ter um bom gosto musical! Lógico que não gritei, mas resmunguei isso enquanto abria a porra da porta. Abri meu apartamento ainda remoendo a situação. Meu apartamento parece que foi acometido por um furacão, e esse era para ser meu pódio depois de minha subida do Everest de quatro andares, mas o Zico tirou esse gosto de vitória de minha boca.

Fui para o banheiro tomar um merecido banho. Abri a torneira e fui bombardeado por agua gelada. - Maldito seja! Esqueci dessa merda sem força! Tomei um banho frio a contragosto, e cantarolando “o movimento é sexy, o movimento é sexy...” que porra essa merda gruda na cabeça vontade de jogar o Zico e suas cantorias pela janela do décimo quarto.

Terminei o banho e a maldita cantoria. Uns cinco minutos depois a luz voltou. Eu me peguei xingando a luminária. Ela não ligou.
Clara viria aqui hoje para conversarmos, eu já estava todo animado, pois a gente não tinha transado ainda e hoje acho que seria o dia do abate. Que horrível falar assim, acho que vou usar termos mais poéticos para me referir a Clara que é uma mulher mais fina, vamos fazer amor, acho que fica mais bonito e mais romântico.

Preparei tudo, vinho no gelo, velas, parece romântico, mas as velas comprei por causa das constantes faltas de luz elétrica. Fiz um ensopado à moda espanhola que é minha especialidade, comprada na esquina, logicamente feita por alguém que sabe cozinhar que não é meu caso. Preparei tudo arrumei a casa do jeito que deu, tava tudo mais ou menos certo. Clara chegou, deslumbrante em um vestido hippie de butique, parecia até um lindo abajur que vi na rua outro dia.



Ela estava meio inquieta, pedi para ela se sentar na mesa à luz de velas e com as taças prontas para serem enchidas. Ela disse que queria falar algo importante, eu retruquei que devíamos comer antes e falaríamos durante o jantar. A verdade era uma só, pra falar a verdade duas, uma que eu tava morrendo de fome e a outra que eu queria que ela bebesse logo para “fazermos amor”. Clara entre uma garfada do ensopado e um gole do vinho me disse que tava tudo terminado: - Po, tá bom esse ensopado hein, ah acho que não rola de ficarmos mais juntos, era isso que queria te dizer, sei lá perdi a vontade.

Quase perguntei se ela queria mais vinho com ou sem arsênico. Eu fiz cara de paisagem, tentando fazer a pose mais blasée possível, queria mostrar que também era um cara moderno, adulto, que lida bem com essas coisas. Mas no fundo tava era puto da cara, imaginando: - Fazer amor o caralho, fina só se for lá na cadeia, porque ela sozinha devorou quase todo ensopado. Eu perdi a fome para ser sincero.

Eu tinha ficado semimudo enquanto ela tagarelava horrores. Ela olhou para o relógio viu a hora e falou:

- bem vou nessa nos vemos por ai, valeu pelo rango depois precisa me passar a receita! Se levantou da mesa tacou um palito de dente na boca e saiu. Eu fiquei lá parado olhando a cena, devia ter falado pelo menos que a receita é do cara do barzinho da esquina, eu devia ter falado tudo que achava daquela situação, mas fiquei quieto e lavei os pratos.

Depois de lavar os pratos fui tomar um gole do vinho afinal eu tinha desistido de beber antes. A campainha toca, eu imaginei: - Será que ela resolveu voltar e “fazer amor”? Ledo engano era só o Constantin que tava de passagem.
- E ai George, tava sem nada para fazer mesmo, resolvi dar uma passada ver se você tem uma birita ai, ou algo assim.

Filho da puta, veio filar um rango! mas só imaginei

- Tudo bem Constantin, a Clara acabou de me dar um fora, ia mesmo beber...

- Porra cara que merda hein, o que você tem ai para comer?

Quanta preocupação com minha pessoa né seu filho da puta – imaginei mais uma vez.

- Tem um pouco de ensopado do bar do seu zé ali, ou pelo menos o que restou dele depois da passagem da clara pelas panelas.

- Porra, só tem uma Merreca, posso pegar uns biscoitos e um pão ali para dar uma aumentada no rango?

Porque você não leva também meu dinheiro? Imaginei de novo.

- Pode e para de me encher quero tomar um porre.

- Po legal, posso acompanha-lo ? Também to a fim de tomar um porre.

Claro, sou eu que to pagando né desgraçado! – imaginei pela quarta vez.

- Tudo bem, to ali na sala quando terminar ok? Enchi um copo de vinho com o que sobrou da garrafa, entornei com tudo, mas não tinha sobrado muita coisa, a Clara parecia um enxame de gafanhotos. Fui até ao armário e peguei a única coisa bebível que tinha lá, uma garrafa de uísque Green Valley, era terrível. Já tomei uns analgésicos junto para me prevenir da dor de cabeça. Ou seja meu dia ainda estava uma merda.
Constantin tava comendo diretamente na panela, já se serviu de uma dose de Green Valley e disse.

- Porra que merda hein? Veneno puro! Falou isso e se serviu de mais uma dose.

Reclamei da vida com Constantin, que pelo menos serve para isso, ele não fala quase nada que preste, mas pelo menos presta atenção. Ai ele foi embora lá pelas três da manhã, de porre. Pelo menos o Green Valley propicia isso.

Fui dormir. Nem o porre e nem os analgésicos tinham ajudado, pois a dor de cabeça começou a se avizinhar e eu não conseguia dormir. Enquanto estava deitado rolando na cama comecei : - “O movimento é sexy, o movimento é sexy...”

- Cacete!  Zico filho da puta.
Escrito por Cleiner Micceno ( dedicado ao grande amigo Rick Pacheco)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

E assim caminha a humanidade - um conto metafísico

Desisti de tudo! Berrei isso em voz alta, mas logo depois calei a boca quando vi o olhar de desaprovação de meu periquito.

Não podia mais entender todo aquele lance metafisico que estava lendo, os porquês da alma, da vida, da situação mundial e a alta do aluguel. A situação era desesperadora. Porque ninguém fala tudo de forma simples, como o quitandeiro que coloca lá: Uma dúzia de laranjas por 3 reais.

Assim realmente não é possível. Kierkegaard, falava e falava em relações da vida, como viver pode ser um eterno confronto e todas essas coisas e ele não sabia cozinhar uma receita de lentilhas decente.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Decadência e restos humanos - Uma comédia do cotidiano



Estávamos eu e Constantin, ele havia chegado há pouco de viagem e insistiu depois de algumas  horas para que saíssemos para uma festa no apartamento de Camile, uma putinha da alta que adorava chamar uns basbaques da sua roda e uma fauna de artistas boêmios que viviam bêbados e reclamando da vida; um mais genial que o outro. Eu odiava esse tipo de gente tanto um quanto o outro grupo, mas Constantin estava eufórico, pois tinha transado com Camile no banheiro de uma boate suja uns tempos atrás e sempre achava que conseguiria de novo. Acho que essa era sua forma de vingança com esse tipo de gente idiota.


Bem fomos lá os dois, Constantin era do tipo magro, parecia um palito com braços, nariz adunco e olhos eternamente esbugalhados como se tivesse sempre levando sustos; usava um chapéu de aba curta, e um terno azul royal. Se estivéssemos em Jersey provavelmente ele seria confundido com um dos cafetões que rondam  as esquinas com seu cartel de putas baratas.

Eu estava sem saco para essas coisas . Coloquei a primeira coisa vi, um surrado blusão de couro que comprei na loja de penhores, que o dono jurava que pertenceu à um combatente da segunda guerra, mas acho que a etiqueta,  feito no México , descartava qualquer hipótese, mas isso não vem ao caso. Peguei a porra da jaqueta, uma camiseta surrada e minha faca de estimação, uma butterfly  que sempre andava comigo, afinal nunca se sabe até onde a idiotice alheia pode afetar seu tédio.

Pegamos o carro de Constantin, um Chevy 72 em péssimo estado, já vi latas de lixo mais apresentáveis. Descemos a toda velocidade, ou seja menos de 50 por hora pois o motor fazia muito barulho e muita fumaça, me sentia uma sardinha defumada. Chegamos ao apartamento de Camile que já tinha uma aglomeração de gente estranha na porta. Cruzei uma menina que não devia ter mais que 16, agarrada com um velho barbudo com pinta de ter muita grana, e do jeito que ele segurava a bunda dela provavelmente não era o avô preocupado que veio trazer a neta.

Subimos dois pares de escadas, uma merda, odeio subir escadas, devia ter ficado em casa, se quisesse fazer exercícios correria da policia.

Entramos na sala já acendi um cigarro, queria achar alguma coisa para beber antes de algum daqueles idiotas virem falar algo. Constantin foi para o canto da sala onde estava Camile, com uma roupa estranha daquelas todas rasgadas, mas que você consegue ver a etiqueta, era falso demais, aquilo tudo era como um grande balão de ar prestes a explodir.

Mirei em uma garrafa de whisky na outra ponta da sala, sai decidido a chegar lá sem olhar para os lados. Tive de interromper meu percurso por causa do babaca do Mickey, esse cara é insuportável. Com sua cara de vela derretida parou na minha frente e deu um grito que parecia que tinha visto o Papa.

- George há quanto tempo não te vejo?

- Olá Mickey, acho que não tanto quanto eu gostaria.

-George sempre  brincalhão, gostaria de te apresentar uma pessoa ... Betty venha cá quero te apresentar um grande amigo, ele é escritor...

Odeio essas apresentações, esses contatos sociais, cada vez mais prefiro a companhia de garrafas que de pessoas.

- Georgie essa é Betty – Disse  Mickey com um sorriso quase patético em sua cara de cera. – Nós vamos nos casar em breve e faço questão que você seja padrinho ...

- Claro Mickey, desde que você pare de me chamar de Georgie – Era o que me faltava, além de tudo ainda ser padrinho da burrice alheia. – Olá Betty como você aguenta esse cara? Á ponto de pensar em casar com ele... (Era sério isso, ela até que era bonita)

- Não te disse Betty que ele é um grande brincalhão, adoro esse cara. – Pena a reciproca não ser verdadeira, mas eu ainda estava muito sóbrio para falar isso então só pensei.

- Olá muito prazer George, Mik sempre fala muito de você. –Ela disse isso enquanto pegava em minhas mãos com delicadeza  e com seus olhos cheios de fogo olhando para os meus, que na hora acordaram. Bem a festa podia começar a ficar interessante.

- O prazer é meu, Betty.

- Mik me disse que você é escritor.

- Nada apenas rabisco algumas coisas, você sabe como o MIK é exagerado.

- Eu li algumas coisas suas e são bem mais que rabiscos. Eu também gosto de escrever, mas ainda não acho que sejam bons para mostrar para alguém... Mickey a interrompe no meio da frase e diz:

-Georgie você precisa ver os trabalhos de minha doce Betty, são maravilhosos, ela fica encabulada quando falo, mas te garanto cara é material de primeira, você bem que poderia dar uma conferida e mandar para seu editor ...

- Seria um prazer ver seu trabalho Betty – Os olhos dela não desgrudavam dos meus apesar de estar envergonhada com o falastrão do Mickey. E eu só pensava naquele corpo andando por meu quarto de forma bem pouco literária.

De repente Mickey gira o pescoço, viu mais alguém lá e começou a gritar e puxou Betty com ele, que me deu uma olhada desconsolada, Mickey era realmente um idiota...

Bem cheguei até a garrafa de whisky, parecia que estava me esperando, me acomodei ali perto do balcão, enchi um copo, e bebi em um gole, estava com sede, já enchi outro bem servido e entornei metade, completei  de novo pois não gosto de ver o copo meio vazio, dá azar assim como pessimismo.

Queria me tornar invisível e sair de lá ileso sem maiores aporrinhações. Vi Constantin passar com Camile depressa em direção ao banheiro, acho que os dois têm algum fetiche com vaso sanitário. Eu entornei o copo e enchi mais uma vez, pois vi que a noite seria longa, pelo menos o whisky era bom. Gente da alta pelo menos tem grana para comprar algo melhor que a gasolina que costumo beber.

Eu estava há quase uma hora ali no meu canto sem ser incomodado, até que sentaram-se do meu lado um casal de artistas daqueles cheios da magia da arte, que é de longe o tipo mais insuportável. Eu os conhecia há algum tempo, mas só de vista. Ela era filhinha de mamãe que se juntou com um desses poetas sujos de rua de nome tão interessante quanto sua obra, Boca de Veludo, que merda de nome.

- Hey George, vi seu conto na Black Pole, meu... Achei... Simplesmente... Demais cara. - Ele falava pausadamente, como se cada palavra valesse ouro e tivesse que ser dosada. Isso enquanto alisava aquela barba sebenta, como se nela repousasse uma grande sabedoria.

- Que bom, a policia não achou o mesmo...

- Você... É... Assim... Um cara demais. – Nossa como ele é um sujeito articulado eu imaginei.

Ai a matraca da ninfeta criada com leite maltado começou a falar, fazendo gestos exagerados com as mãos e seu vestido de tecido vaporoso florido subia mostrando as pernas.

- Nossa eu acho que artistas têm um dom divino, manja, conseguem essa iluminação de falar as coisas, acho isso tão incrível, o artista é um ser iluminado, tem uma alma sublime, blá, blá, blá... – Confesso que só consegui ouvir até ai, enquanto a deslumbrada falava, ela era até bonita, tinha umas coxas brancas à mostra, resolvi me concentrar mais nelas do que em suas palavras.

Eu apenas acenava com a cabeça enquanto ela continuava, aproveitei e enchi mais uma vez meu copo, eu estava realmente com sede.

- Você também não acha isso, que os artistas são almas elevadas? Que conseguem transpor as barreiras com seu dom divino...

- Eu não sei, acho que uma garrafa traz inspiração, minha musa é uma garrafa cheia. Essa coisa de artista divino é besteira, não passam todos de farsantes, essa coisa de sair polinizando o mundo com sua sensibilidade é uma idiotice. Um bando de fadinhas de um faz de conta, quero mais que se fodam com toda essa frescura. Levar-se  a sério é uma grande bobagem. Desculpem se vocês dois polinizam o mundo, mas eu vou pisar em todas essas flores coloridas que vocês fazem brotar de suas respectivas bundas... Levantei em direção ao banheiro entre os olhares de gatos assustados dos dois. Ainda estava muito irritado, esse tipo de gente azeda um pouco mais meu humor. Então disparei uma frase de efeito, enquanto completava meu copo, que não sei por que já estava vazio de novo.

- O mundo é uma grande bola de merda.

E lá fui eu em direção a porcaria do banheiro, cambaleando depois de minha conversa com meus dois novos amigos do peito.

Cheguei e a porta estava fechada, abri de uma vez, lá estava a bunda branca de Constantin subindo e descendo com a Camile por baixo. Passei pelos dois eles nem notaram minha presença. Fui até o vaso mijei com raiva daquela merda de festa, passei de volta e gritei para Constantin :

- Seu filho da puta egoísta, enquanto você fode essa vaca eu tenho que aguentar esse bando de idiotas, eu vou embora! Depois nos falamos...

Sai com raiva batendo a porta o desgraçado nem parou o vai e vem.

Fui abrindo caminho no meio da multidão, agora começavam aparecer os cachorros de rua, aquele tipos ensebados que farejam uma festa, que não conhecem ninguém, mas se infiltram. Tinha algumas putas, uns viciados, só gente de fino trato. Eu peguei o que restou da garrafa de whisky , coloquei debaixo do blusão de couro da segunda guerra do México e trilhei minha própria trincheira para fora daquela merda. Cada dia odiava mais as pessoas e o convívio delas, eu acho que estou ficando maluco, antissocial, sei lá o que mais. Só sei que ali não queria mais ficar, era uma chateação que eu podia ter me poupado. Devia ter pegado a chave da lata velha do Constantin, mas provavelmente eu morreria sufocado com a fumaça.

Já estava descendo as escadas, pronto para uma caminhada de vários quilômetros até minha casa, quando ouço uma voz de mulher me chamando:

- George ... George...

Era Betty, estava sozinha descendo rápido atrás de mim. A noite como mágica se tornou mais interessante de novo.

- Olá pequena, desculpe sair sem me despedir, é que já não aguentava mais essa festa...

-Tudo bem eu também não... Quer ir em casa ver meus textos ?- Ela disse com um olhar muito doce.

- Hhumm não é má ideia, mas sendo sincero não aguento mais a cara do Mickey...  – Respondi de forma meio sacana.

- Nem eu, saí da festa e nem dei satisfação. Ele está dormindo em um sofá, depois de ter tomado duas doses, ele é fraco demais para bebida e se torna um imbecil... Realmente não quero carregar aquele peso morto embora... E então vamos?

- Se uma dama me pede com tanta delicadeza seria grosseiro de minha parte não ir,
não acha?

- Com certeza eu veria isso como falta de cavalheirismo.

- Então eu vou, mas estou sem carro, sabe como é, vim de carona...

- Sem problemas vamos no carro do Mickey , eu estou com as chaves , ele não vai se importar mesmo.

-Ok as damas primeiro.

Até que enfim o Mickey serviu para alguma coisa na vida dele. Talvez depois dessa noite eu aceitasse ser seu padrinho...

por Cleiner Micceno

sábado, 11 de setembro de 2010

moscas de bar e cães de rua - um conto etílico

Dedicado a Charles Bukowski



Me vê mais uma dose ai Henry – eu disse em voz alta –

Você já bebeu demais George, vou te servir mais e uma e você vai para casa.

Maldito seja Chinaski, eu que sei quando bebi demais.

Não encha o saco George, senão te enfio um murro nessa cara inchada e te jogo fora mais rápido que de costume... se você quiser beber mais vá a outro bar que esse aqui já está fechando. Tome aqui a última dose, depois disso rua. E aproveite que estou contente hoje e isso é raro...

 Tudo bem boneca, você esta ficando muito chato depois que entrou naquela merda de AA, nem parece o velho Henry Chinaski que fechava o bar quando o sol já estava batendo na janela do corredor.

Cala a boca George, já falou demais para um cara de seu tamanho.

Resolvi fechar minha boca, afinal ele era maior que eu , fui importunar Jim cara de toupeira, que estava na mesma situação.

Como vai Jim – disse em tom de festa para o velho Jim, ele estava com uma camisa vermelha desbotada e um chapéu branco que ficava ajeitando na cabeça magra incessantemente, que aumentava ainda mais seu nariz pontudo de fuinha, ele já estava com a cara derretida de tanta bebida
Como vai Georgie boy, importunando o velho Chinaski? Cuidado que ele tem uma direita bem dolorida. – Chinaski olhou para nós dois e mostrou os punhos com uma cara engraçada, em posição de boxeador, catou um limão na pia, próximo aos copos e jogou com força na cabeça de Jim arrancando seu chapéu branco ridículo que dançava em sua cabeça.

Maldito seja Henry, esse chapéu me custou três pratas e uma garrafa de vinho...

Chinaski olhou com cara de pastel e disse – Vá se foder Jim, todo mundo sabe que você roubou isso do velho Turkey John, quando ele dormia na frente da praça, e depois ficou com remorso e deu meia dose de vinho para o pobre diabo – Disse isso e se curvou para lavar os copos sujos de bebida e com tocos de cigarro dentro.



Jim só resmungou algo e baixou pegar o maldito chapéu, parecia um dos cafetões da Rua 8. Cheguei de seu lado e sentei no banco junto a sua mesa.

Hey Jim como você consegue usar essa merda ai na cabeça sem espantar as velhinhas na rua?

Você também Georgie boy? Esse chapéu me dá um certo estilo, veja como fica bem em mim. E fez uma pose que o deixava ainda mais patético que de costume.

Claro Jim, te deixa com estilo bem peculiar, parece uma toupeira entrando na toca... Eu disse imitando uma toupeira chafurdando um buraco.

Cala a boca Georgie boy.

Odeio quando você me chama de Georgie , nem minha Mãe me chama assim

E você lá tem Mãe Georgie, você como eu é filho de chocadeira.

Eu tenho mãe sim seu puto, só não a vejo há alguns anos, ela já deve ter desistido de mim, só a via para pedir grana, eu parei de vê-la assim que ela parou de me dar as verdinhas.



Você é um grande filho Georgie, um grande filho da puta ...

Bem falemos menos de mães, quem era aquela loira de bunda grande que você estava esses dias ai Jim? Parecia ter um belo traseiro que rebolava para todo lado.

Era minha prima seu escroto, veio me visitar ver se eu ainda estava vivo.

Bem ela encontrou um cadáver com um chapéu bonito pelo menos – falei com um sorriso sacana nos lábios e completei – E prima não é irmã Jim, eu teria aproveitado. Mas se você é filho de chocadeira como é que tem primas? Nasceram todas da mesma ninhada? Fiz uma careta e entornei meu copo em uma virada.

Não, ela é do tipo religioso, adora bíblia, esses lances do cara pendurado na cruz, essas coisas, não faz meu tipo.

E você lá tem tipo Jim, saiu até com a Jane, aquela vadia que não toma banho há anos...

Eu era jovem precisava do dinheiro...

Faz menos de uma semana porra!

Eu e ele caímos na gargalhada, quando o puto do Chinaski já começou a berrar lá do balcão.

Vamos lá seus inúteis já estou fechando isso aqui, terminem suas bebidas que preciso ir embora, não aguento mais ouvir essas merdas de vocês dois, se ambos são vagabundos eu não sou; e tenho que dormir...

Eu olhei com cara de tédio e disse para o idiota

Henry pare de falar merda, até um mês atrás você bebia mais que nós dois juntos, era um traste, e ainda por cima enchia de porrada a Mary que te aturou até morrer, foi preciso ela bater com as dez para você ficar com essa merda ai de vigia do álcool alheio... Não consegui terminar minha frase e vi aquele monstrengo pular o balcão. Eu estava bêbado demais para reagir, o ódio estava estampado nos seus olhos. Ele me pegou pelo pescoço e com uma mão de britadeira desferiu um soco bem no meio de meu nariz, maldito era valente e tinha força.
Seu filho da puta, da próxima vez que você falar o nome da Mary aqui de novo te mando para o necrotério. Lave essa boca de dentes podres para falar dela, ela não era dessas vagabundas que andam com gente de sua laia...

Eu estava bêbado demais e anestesiado demais para calar a boca e já emendei.

Ela era do tipo que andava com caras finos como você né Henry?

Senti um murro no estômago e mais um no meu queixo, cai umas duas fileiras longe de onde ele estava, senti gosto de sangue e vômito. Jim pulou na frente de Henry e tentou colocar panos quentes na situação.

Henry ele está muito bêbado não sabe o que fala, nós já vamos embora, eu o levo embora, senão você vai acabar matando esse puto, ele não aguenta nem um sopro...

Tudo bem Jim, leva ele embora. – Ele saiu já ia chegando no balcão quando se virou e disse com a voz mais calma do mundo

George, se você pisar aqui de novo juro que te mato.

Jim estava me ajudando levantar, depois do atropelamento que tinha acontecido, eu nem olhei para o lado de Henry, só queria sair dali enquanto ainda estava inteiro.

Eu ia apoiado em Jim, ganhamos a rua, sentamos na beira da calçada, já era muito tarde, olhei para sua cara de fuinha amassada e disse

É esse puto do Chinaski me pegou de jeito, sempre esqueço que ele foi peso pena antes de começar a beber.

Você não tinha que ter falado nada da Mary, Georgie...

Não me chama de Georgie porra, é humilhação demais por um dia

Ah esqueça isso será que achamos mais algum bar aberto? Perguntou Jim.

Sei lá, mas preciso de uma merda de uma dose, ou uma dúzia delas, já nem sei mais, tá tudo doendo.

Enquanto eu reclamava da vida Jim ajeitava pela milésima vez aquele chapéu ridículo.

Bem que hoje eu poderia encontrar a Jane, ela sempre tem uma garrafa na casa dela...

Bem vamos atrás dela, você fica com ela e eu com a garrafa...

Cala a boca Georgie, por que eu tenho que ficar com a pior parte?

Nem esquenta Jim, você ainda é jovem, e eu estou sem possibilidades de qualquer coisa que não seja uma garrafa, vamos me ajude a levantar.

Enquanto me levantava comecei a sentir todo meu corpo doendo, como aquele filho da puta batia forte, acho que tinha amolecido meus dentes.

Vamos Jim, a Jane nos espera.

Será que ela vai gostar de meu chapéu Georgie?

Ela deve gostar, te dá um certo estilo, mas para de me chamar de Georgie.

Apoiei-me em Jim e fomos em direção à rua da Jane, Jim me perguntou:

E ai onde você vai beber agora ?

Ah logo passa a raiva do velho Henry, e ele não vai ligar em me servir algumas doses.

E se ele envenenar sua bebida?

Ah, eu morreria feliz com uma dose mais forte que eu.

Descemos a rua, a luz da casa da Jane estava acesa e uma janela displicentemente aberta, pelo cheiro que emanava de dentro da casa, ela ainda não havia tomado banho. Era um ótimo final de noite para mim, mas não muito para Jim e seu chapéu ridículo.

Escrito por Cleiner Micceno

sexta-feira, 30 de julho de 2010

o Sofá Vermelho - um conto BDSM



Tem dias que nada da certo, pensou Silveira naquela tarde escura de agosto, logo depois de uma borrasca que atingiu seu carro ainda há pouco, quando voltava em alta velocidade para sua antiga casa e sua antiga esposa, ele estava mais sombrio que de costume, as nuvens em sua cabeça e em seus pensamentos estavam mais tempestuosas que o aguaceiro que o atingiu.
Tudo tinha começado há menos de um ano, era um executivo medíocre de uma empresa de etiquetas, nada muito emocionante para um cara com as ambições dele.


Ele tinha ideias, varias delas, todas muito viáveis no mercado, só precisava achar alguém que investisse nelas e acreditasse em seu potencial lucrativo. Na empresa onde trabalhava todos seus chefes e proprietários eram toupeiras velhas de outra geração, não queriam investir em nada novo, afinal suas fortunas já estavam garantidas, por que se arriscar em besteiras de um novato, que apesar de ambicioso, nunca mostrou nenhum grande talento? Ele tinha a pior praga que pode acarretar a um ser humano, ser apenas mediano, um ser qualquer, sem maiores virtudes, com uma pacata vida classe média, ou seja, pior que ser ninguém era ser apenas um ninguém mediano, que nem reclamar podia, afinal bem ou mal tinha uma vida confortável e inútil, tinha uma família bonita, não tão bonita como uma família de propaganda de margarina, com sorrisos brancos e reluzentes, mas era uma família que como ele era mediana.


Ele já tinha pensado em jogar tudo para o alto mais de uma vez, mas a mulher, que era mãe impoluta de seus filhos, sempre tirava dele essas ideias revoltosas afinal, ele tinha que sustentar a casa.
Mas Silveira como todo ser medíocre da classe media entediada, tinha um lado negro, obscuro, que ele escondia de todos á sete chaves, ele gostava de sadomasoquismo, BDSM médio como ele, nada muito hardcore, gostava de mostrar quem manda, mas sempre era chamado de delicado por suas supostas escravas, que não tinham nele nenhum respeito, e realmente ser desrespeitado pelas próprias escravas era o cumulo, mas tudo bem, a vida continuava assim, mas ele sabia que um dia isso mudaria.
Bem mudaram de certa forma, tudo aconteceu de forma quase simultânea, ele tinha mandado os projetos dele para um manager profissional, para tentar vender alguma de suas ideias no mercado, já tinha quase desistido quando em uma segunda feira chuvosa como o dia que ele se encontrava em alta velocidade indo para casa um ano depois, recebeu um telefonema de seu manager, que solta à queima roupa:
- Vendi um grande projeto para investidores alemães, só precisamos acertar os detalhes, marquei uma reunião para amanhã as dez, seja pontual que eles são rigorosos; se tudo der certo já imagine uma conta com mais de seis dígitos. Disse isso como quem estava com pressa e algo mais importante para fazer e desligou sem nem esperar resposta. Silveira por outro lado estava estático, segurando o telefone em uma das mãos, com a boca aberta de forma idiota, e o barulho de ocupado soando em seu ouvido.


Nessa mesma tarde tinha marcado uma saída com uma mestiça japonesa belíssima, seria mais uma saída como outra qualquer, que provavelmente nunca mais veria a cara, saiu as quatro e foi direto para o local marcado, a casa dela em um bairro classe media da cidade, ao entrar deu de cara com a japa linda em cima de saltos agulha de quinze centímetros, vestida em vinil vermelho e um chicote de sete caudas nas mãos. Parecia uma cena de um filme pornô-trash-kitsch- decadente, ela era uma dominatrix chamada Elektra, seus olhos rasgados e penetrantes eram profundos, viam a alma medíocre de Silveira, uma figura patética, mortiça e sem maiores atributos, ela o puxou pelo colarinho, jogou-o em um sofá vermelho de vinil reluzente, igual a roupa que compunha o visual decadente cyberpunk da oriental, dominou-o com violência e já foi algemando as mãos do infeliz com força atrás das costas, como um porco indo ao abate, Silveira urrava de dor e gritava ensandecido
- Caralho! Deve haver algum engano! Moça eu...
Ela puxa com força os braços algemados dele pra trás, desce o chicote na coxa do infeliz e diz
-Moça? Só se refira à mim como SENHORA, e só quando eu disser que pode, e agora você não pode!
Que situação ridícula e triste se encontrava Silveira, imaginando em sua cabeça de siri, que iria apenas ter mais um sessão sado-maso onde ele era o mestre, como sempre meia boca, mas mestre. Caiu em uma armadilha do destino, agora estava algemado em um sofá vermelho de costas para uma japa doida que já tinha sacado uma gag-ball e uns dez metros de corda trançada ao lado do sofá, ele suava frio, aquilo era um engano, tudo na vida dele era um engano naquele momento. Ela o tinha feito até esquecer o nervosismo da reunião que teria na outra manhã, sua prioridade agora era sua própria pele na mão de Elektra.

 - Senhora, preciso falar, - Ele sabia que precisava da convenção antes de abrir a boca- Por favor, é tudo um grande engano, podemos deixar para outro dia eu pago o que for necessário...
Ela apenas olha de cima com seus olhos frios para aquele leitão prestes a ser embrulhado e diz rispidamente:
- Eu não dei permissão e você falou bem mais do que devia, tentando comprar sua senhora com dinheiro? Está tentando me rebaixar ao seu nível, seu verme desprezível? Vamos ver se você ficará educado ou não. - Puxou a gag-ball e debaixo de protestos, foi amordaçado com uma espécie de focinheira, estava literalmente fodido.
Elektra conhecia profundamente seu oficio, amarrou com maestria Silveira que se debatia de forma inútil, - Quanto mais rebelde maior será sua punição... - Dizia ela de forma quase infantil.
Depois de embalado de costas, com todos os membros presos aos pés e braços do sofá vermelho, provavelmente projetado para aquilo, nu da cintura para baixo, a Senhora começou seu oficio, começou de leve com gotas de cera quente, que gotejavam de uma vela de sete dias, sessão de chicotes na bunda branca e virgem, pequenos choques nos testículos ou seja serviço completo. Para finalizar a sessão ela pega a vela que tinha utilizado para o gotejamento, e com um sorriso safado mostra para um absorto Silveira de olhos arregalados e com baba escorrendo abundantemente de sua boca magra, ele começa a se debater quase se sufocando com a baba e os gritos abafados.
 Ela introduz a vela na bunda salpicada de cera e vergões vermelhos de Silveira, ele tentava urrar, mas só conseguia babar com mais intensidade, as lagrimas caiam de seus olhos e a japonesa impávida , introduzia mais alguns centímetros daquela vela que fora feita originalmente para louvar alguém, ela olhava até com certo tédio, afinal, aquilo era apenas rotina.
Meia hora depois já recomposto Silveira pagou a japa, estava todo marcado, não conseguia sentar, mas estava feliz como nunca se sentira, seus pensamentos estavam em choque profundo com o que tinha sentido e passado. Seu sentimento era de satisfação, seu corpo dolorido queria mais, por anos ele foi um senhor medíocre, mas agora era um escravo acima da media, saiu de lá confiante, teria de dormir com um pijama azul que cobria todo seu corpo para disfarçar o martírio, mas sentia que ali começava uma nova etapa de sua vida.

No outro dia foi para a reunião com os investidores, já estava recomposto, jovial como não se sentia há anos, ao entrar no saguão onde seria a reunião, se depara com um móvel que lhe chama a atenção, um grande sofá vermelho de vinil, ao ver aquilo se sentiu ainda mais confiante, aquilo só poderia ser um sinal, sua sorte mudara.
Três horas depois ele saiu de lá com um sorriso largo no rosto, tinha se tornado um homem rico, agora ao invés de um executivo de uma empresinha de merda ele seria um dos diretores do novo empreendimento que ele tinha imaginado, ligou para Elektra antes de ligar para sua própria mulher, e já marcou mais um encontro para aquela mesma tarde.
Os dias passaram, ele para comemorar as boas novas, comprou um grande sofá vermelho para decorar a sua sala sob protestos da mulher, que achava aquilo com cara de bordel barato, mas ele era simbológico, aquilo representava a vida dele depois das mudanças, representava ELEKTRA.


Ele já estava nessa havia quase um ano, suas visitas para Elektra eram primeiro semanais, depois duas vezes por semana, comprou um carro para ela, um flat de vista para o mar, tudo no nome dela, passado no papel, as visitas eram quase diárias aquela altura, ela atendia exclusivamente ele.
Ele já estava farto de viver com a mulher e os filhos ia dar um pé em tudo naquele dia fatídico de agosto, afinal estava com grana, os negócios estavam meio parados mais a tendência era a melhora se nada desse errado, já tinha montado o apartamento para sua japa deliciosa, nada mais podia dar errado ele poderia enfim se sentir livre e fazer o que lhe aprouvesse. Saiu mais cedo do escritório, passou em casa, encontrou sua mulher na cozinha tomando um café e despejou tudo, falou sobre seu caso, sobre suas vontades e sobre o tédio que era sua vida até então, debaixo de gritos, arroubos, e pratos quebrados ele pegou algumas peças de roupa, ajeitou como pode e foi para a casa da Japa sem avisar, chegou lá e a encontrou de quatro, sendo enrabada por um rapaz de pele tostada pelo sol, ela nem se deu ao trabalho de parar os movimentos de vai e vem. Ele de boca aberta sentado no sofá vermelho, com lágrimas queimando nos olhos, as roupas que trouxera em uma sacola de um supermercado caída de forma displicente perto das roupas intimas do casal, e entre um gemido e outro ele dizia que achava que eles tinham algo especial, dos porquês de ter montado a casa para os dois morarem juntos, do quanto ele imaginou que ela estava apaixonada por ele e toda ladainha possível de um cara que nem nessa hora conseguia ter uma atitude de mínima dignidade. Ele falava e ela tacitamente mudava de posição para ter uma melhor penetração. Depois de ouvir tudo de forma indiferente, ela sorriu com prazer estampado no rosto e disse:
- não seja idiota, uma mulher quer um homem de verdade, agora vá embora, que eu quero gozar!



Ele saiu desolado, fechando de forma bem suave a porta atrás de si. Seguiu de volta ao escritório, estava arrasado sem saber como voltar para casa e o que dizer para sua agora ex-mulher. Mas o dia ainda reservava mais algumas surpresas para Silveira ele foi chamado para uma reunião urgente no saguão, onde ele desceu e se sentou no sofá vermelho de vinil, ali ele recebe mais um golpe, sendo avisado que os investimentos na empresa haviam despencado pelo alto risco e em tempos de crise o melhor era ser previdente, que a empresa como milhares de outras mundo á fora tinham que encolher muito e diversificar se quisessem sobreviver, a solução encontrada por eles foi reduzir pessoal, e fechar o setor que desenvolvia o projeto idealizado por ele que era muito dispendioso, e talvez em um futuro mais promissor reativa-lo. Por enquanto produzir selos seria mais seguro, já que a empresa sabia que ele tinha experiência nesse tipo de mercado e poderiam reaproveita-lo nessa nova etapa onde ele seria um dos executivos, com salário reduzido, mas o bastante para uma vida confortável e feliz...
Saindo do saguão acelerou seu carro e uma tempestade assomou no horizonte e o pegou em cheio, naquela tarde de agosto.
Chegou em casa viu sua mulher com raiva nos olhos sentada no sofá vermelho, ele a olhou, sem dizer uma palavra, ele sentou-se como um cão arrependido, pegou o talão de cheques, que tinha em sua pasta assinou todas as folhas e entregou para a sua mulher, sacou o cartão de credito deu também em suas mãos e disse:
- Gaste como quiser e em que quiser, é tudo seu, troque as roupas, os aparelhos, os móveis, compre tudo novo, só deixe esse sofá vermelho.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O descompasso

O sol apareceu naquele dia às cinco e trinta e sete, os primeiros raios perpendiculares cortavam os prédios da cidade. Às cinco e trinta e oito o jornaleiro já estava na esquina à frente de onde pegava os jornais, descia rápido, estava atrasado, Sr Werner, um judeu alemão, sobrevivente de Dachau na segunda guerra, levantava-se todos os dias aos primeiros apontamentos das luzes matinais, e gostava de ler a página de esportes assim que abria a porta, ficava lá, estático a espera, e assim que chegava o jornal, lia as linhas com rapidez apesar de sua idade avançada, com uma xícara de café em uma mão equilibrando o jornal com a outra, e o jornaleiro sabia que se chegasse no horário, ganharia uma gorjeta que já livraria sua ida a padaria. Parou na porta, e o velho não estava, aguardou alguns minutos, ele não apareceu, simplesmente deixou o jornal na porta e seguiu seu caminho , imaginando que passaria sua manhã sem comer nada. Às seis horas o sol já ia atravessando as ruas, entrando nas casas, não pedindo licença enchendo os átrios, janelas e quartos de uma luz laranja comum ao nascer do sol, trazendo consigo o rufar das asas dos pássaros que madrugam ao raiar da aurora.

Dona Zilma, uma senhora conscienciosa, acordava antes da família inteira e fazia seu café e deixava tudo pronto pra seus filhos e marido, naquela manhã sentiu um grande desejo de sentar-se na varanda, sem roupa, como veio ao mundo, e lá ficar pensando em quando era criança e atirava pedras no lago para ver os círculos que se formavam… As seis ainda, os sinos da igreja e a sirene da fábrica de tecidos, não tocaram como de costume, como que se recusassem atrapalhar o sono alheio.O porteiro da fábrica simplesmente não lembrava seu nome, nem o que estava fazendo sentado ali, começou gritar por sua mãe em pleno pátio, onde se aglomeravam motoristas de frete, faxineiros e fiandeiras, que em um súbito momento começaram a chamar também por suas mães, não por chacota, mas por todos se sentirem perdidos.

Às sete horas no necrotério do hospital central o coração de Dimitri, velho russo dado como morto as três e vinte sete da manhã, com o formulário assinado pelo médico plantonista, começa a bater de novo, ele abre os olhos subitamente, se levanta e recita frases do Guerra é Paz em russo enquanto acorda os outros mortos daquela noite, que começam, cada um a seu tempo recitar poemas e citações de livros que fizeram suas vidas ter sentido, uma algaravia chamou atenção do funcionário que ficava do lado de fora que fez o sinal da cruz e gritou bem alto – Podem me levar que eu já estou preparado! -.

Às sete e meia, no décimo segundo andar de um prédio central, um velho vai até sua janela, sobe no peitoril, esgueira-se até a sacada minúscula abre os braços e salta, com os olhos fechados ele imagina seu primeiro beijo, à noitinha a beira da orla, quando era franzino e acanhado, imaginou os lábios vermelhos dela tocando os seus, o cheiro dela invadindo seu nariz, o gosto de sua saliva com bala de alcaçuz vermelho, lembrava do rosto, lembrava dos olhos trigueiros, mas não lembrava seu nome, pensou nisso enquanto planava com seus braços quase angelicais, indo direto ao encontro do concreto gritou: – Cristinaaaaaaaaaa!- Levantou vôo e seguiu em direção ao sol alaranjado que queimava a relva e fazia brilhar as pedras e cascalhos próximos à linha de trem. Às oito horas, um menino descalço caminhava sozinho, segurava em suas mãos esquálidas uma pequena caixa de música que repetia sempre a mesma nota.

Os cachorros todos uivaram em uníssono naquela manhã quente e assim que os relógios marcaram nove horas, um som agônico, com diversos tons, foi ouvido. Reconhecia-se entre os uivos os cães pequenos e os cães grandes, uma ópera canina, às nove e um exatamente, os cachorros cessaram seu coral, todos ao mesmo instante, como se o som fosse suspenso do ar sem eco ou refluxo.

Às dez horas um coronel reformado, sai marchando sozinho, coloca sua roupa, destacando todos seus galões e medalhas. A marcha solitária toma as ruas, as pessoas param em todas as calçadas, um cordão de isolamento é colocado e as vozes dão vivas ao desfile de um homem só, suas botas batem contra as pedras do calçamento e fazem o barulho compassado, o som pac, pac, pac, pac, se multiplica e mesmo tendo apenas um homem, o som é de um batalhão seguindo seu coronel, que desce a rua principal parando o trânsito. Às onze horas todos abrem seus guarda-chuvas e uma saraivada de tiros derruba milhares de pombos, que caem como uma chuva por toda a cidade, uma chuva de sangue e penas, os canos, soltam uma fumaça cinza azulada, com pausas pequenas entre um disparo e outro

Ao meio dia o relógio da estação parou, os relógios de todos se recusaram a dar mais um passo, soltar mais um minuto que fosse de sua gaiola de tempo, o sol em descompasso com sua altivez diária, se recusava a subir mais no céu, ele ainda estava alaranjado, juvenil, como se tivesse nascido há pouco. O trem não chegou na estação ficou parado alguns metros antes da gare, as pessoas como os minutos, estavam presas, não conseguiam sair de onde se fixaram, mesmo não tendo nada que as impedisse fisicamente de se livrar do cárcere invisível, o Sol libertador da manhã, tinha resolvido ser tirano; por preguiça, por vaidade ou apenas por diversão resolveu ficar ali parado, no meio do céu, enquanto o mundo entrava em uma hecatombe silenciosa, estava tudo parado como em uma brincadeira cósmica, passaram-se horas, quem sabe quantas, afinal o tempo tinha estacado, as folhas deixaram de cair na praça central. Um colibri parou seu vôo em pleno ar, nada mais se movia. A boca de José Antonio ficou imóvel no momento que ia dizer para sua Maria que queria se casar e viver com ela o resto de seus dias, da mesma forma que as palavras de um jovem executivo foram congeladas no ar, quando ia praguejar por ter suas roupas enlameadas por um carro preto que passou de seu lado chapinhando a lama da uma poça na esquina da rua Assunção. Um jovem apaixonado prestes a se jogar de uma ponte carregava nas mãos próximas ao peito, um bilhete onde ele falava em três linhas que estava se matando por amor, o vento havia ouriçado seus cabelos, tampando sua face, como que para esconder esse último momento. Foi também congelada a tristeza de uma mulher de nome Isabel, que estava com lágrimas começando a rolar por seus olhos e um telefone nas mãos, soube que sua mãe havia falecido. Um castelo de areia na praia brilhava com uma luz branca, prestes a ser destruído por uma onda que foi paralisada há poucos centímetros de sua torre principal. O fogo que ardia em uma siderúrgica agora parecia inofensivo, não existia mais movimento, nem calor ou frio. O sol invadia todos os cantos, mas não havia mais temperatura.

De repente da mesma forma que tudo parou, recomeçou sua marcha fugaz, acelerada, pois o mundo tinha de voltar a seu eixo, com suas alegrias e tristezas, com suas pressas, com suas dúvidas, os ponteiros começaram a correr mais rápido, libertando os minutos que antes estavam presos, soltava-os aos borbotões, eles corriam como se para acertar a hora na marra, fizeram as tristezas, as alegrias, as pressas e as dúvidas, assim como as repostas, correrem. O dia estranho era como uma piada, uma folga, um dia de libertação, que tinha ido longe demais, tudo aquilo que tinha saído de seus esquadros, de suas rotinas, agora haveria de correr resfolegando para sua própria linha, para o seu próprio prumo, a vida se tornou rápida, o colibri voou mais rápido que suas asas agüentavam, mas o mundo ainda estava em descompasso, estava se acertando, tudo era acelerado, as pessoas resolviam suas vidas, seus trabalhos, suas querências, tudo tomou fôlego e foi-se terminar no fim do dia.


Com a pressa, aquilo que atrasou chegou muito rápido, o dia passou em minutos, o Sol estava cansado de ficar tantas horas despejando sua luz de jovem, quis se recolher, se esconder um pouco até poder tomar fôlego. E a noite caiu magistral, ela queria a paz, como uma mãe brava com as travessuras de seu filho. Trouxe de novo a normalidade o tempo foi voltando a seu ritmo normal, todas as marchas, os vôos, as palavras, os sons, os desassossegos, os jornais não lidos e os atrasos e indiscrições, foram sendo esquecidos naquele que foi um dia de liberdade e de pouca razão, como um sonho perdido em uma noite febril, a cada corpo cansado e dolorido pelo dia longo, mais longo que os outros, pela posição estacionaria que tinham ficado, que resolviam repousar os pensamentos que eram apagados, como que nunca existido, e aos poucos iam sumindo, a chuva de pombos mortos do dia anterior, os sangues, as penas, os mortos que recitavam, a algazarra canina e todas as lembranças; e quando o último par de olhos se fechou para repousar, com eles foram também os últimos fios que regeram aquela algazarra de vida, e ao dar cinco e trinta e sete da manhã de novo, a Lua já tinha ajeitado tudo, as coisas voltaram a seguir seu rumo, e o Sol maroto, apareceu mais tarde, como se tivesse envergonhado, sua luz ia entrando de fininho nas calçadas e ruas, pedindo licença, o Sol havia se arrependido, e depois de todas brincadeiras, de todo caos que havia causado, decidiu pedir desculpas, e seus raios acariciaram aquela manhã com ternura…


escrito por Cleiner Micceno

uso sob autorização do autor

cleiner.mambo@gmail.com

quarta-feira, 24 de março de 2010

O Pulo - Ou como se matar de forma decente

O que se passa na cabeça de uma pessoa quando está prestes a morrer?

Alguns dizem que você vê toda sua vida em um flash, tudo se passa diante de seus olhos como um filme. Será que nesse momento você chegaria à conclusão que sua vida não valeu nada?

Esses foram os pensamentos que passaram pela cabeça de Will quando ele estava no parapeito de sua janela no vigésimo quinto andar. Ele tinha chegado a essa conclusão extrema de se matar depois de fazer uma minuciosa avaliação de sua vida mais ou menos que tinha levado até então.

Will como todo cara que realmente quer tirar a vida o fez, ou almejava fazer sem alarde, sem bilhete de despedida, sem dar maiores satisfações, afinal, para que dar satisfações de sua morte se nunca às deu para sua vida?

Ele tinha raiva absoluta daqueles suicidas que eram incompetentes, que tentavam passar dessa para melhor e não conseguiam atingir seu intento, odiava ver nos noticiários os caras que sobem em torres de energia,e os que ficam em pontes e ficam gritando, atrapalhando a vida das pessoas, causando blackouts e paralisações de trânsito, tudo para chamar atenção, mobilizar bombeiros e imprensa, menos se matar, ou pior ainda aqueles que cortam os pulsos com pequenas escoriações que nem sangram direito para a família ficar preocupada; e tinham aqueles que tomavam uma cartela de soníferos, que o máximo que queriam era uma lavagem estomâco –retal .

Os considerava todos seres deploráveis, sem força de vontade, reprimidos e carentes querendo atenção.

Sua concepção de suicídio era bem mais elaborada, tinha que ser algo rápido e higiênico na medida do possível, se jogar na frente de um trem ou um caminhão, algo grande que não o deixasse paraplégico, teria horror de ser o fardo de alguém ou de si mesmo, queria um fim rápido, mas se optasse por isso, ficava pensando no motorista ou maquinista que teria em sua vida o trauma de tê-lo matado, e isso ele não queria, afinal era suicida, mas ainda tinha uma ética que todo suicida deveria ter. Tomar veneno nem passou por sua cabeça, odiava o gosto amargo da maioria deles, se fosse pra morrer não seria com um gosto ruim na boca e nem com espasmos, vômitos e quaisquer líquidos a que venha expelir, espalhando sujeira para todos os lados dentro do apartamento, não queria incomodar ninguém; sufocação por fumaça fora de cogitação, não tinha carro e não iria roubar um só para desvalorizar o veiculo e ainda por cima ter fama de bandido quando morresse, não tava afim também de ligar mangueiras em escapamento e colocar a outra ponta dentro do carro fechado, arde os olhos e deve ser uma merda estar morrendo no meio de fumaça.

Se afogar também não, muito molhado e demorado,sofrimento desnecessário. Enforcado era capaz de acharem que era coisa auto erótica, que estava na moda, longe dele essas perversões. Poucas opções para quem quer se matar com dignidade. Ele não tinha um revólver, muita burocracia para conseguir comprar e tinha muito medo de tiros.Já tinha pegado uma faca para cortar os pulsos da forma certa, profundamente em posição horizontal no pulso, até acertar as artérias, esperar o sangue vermelho vivo arterial jorrar como chafariz dos cortes, mas é sujeira demais e além de demorar ele tinha horror a facas e coisas que cortam, doía muito, ele era um cagão, um covarde em sentir dor, não queria isso,

Depois de muito pensar, ele resolveu ir para o parapeito, 25 andares é uma altura respeitável, a sensação é atordoante, imaginar seu corpo batendo nas beiradas do prédio, ou nos fios de alta tensão próximos a rua, mas se tiver uma boa mira e ir como um foguete de ponta ele pode ir direto para o asfalto, cair de cabeça e buuummm... O crânio bate no cimento e ele terá uma morte instantânea, indolor, e fatal, sem possibilidade de erros; fará sujeira, mas assim que recolherem seu corpo é só jogar uma água e a vida dos outros segue em frente, as ruas não guardam mágoas. E por falar nas ruas, agora pensando nisso, imagine quantas histórias passaram por essas calçadas, quantos choros, mortes, separações, noites agitadas e violentas, quanto sangue já manchou o concreto, deve ter corrido muito sangue ai, ele faria parte dessa história, deixaria uma marca, mesmo que apenas um salpicado, afinal o que seriam só mais algumas gotas nesse oceano de concreto?

Will depois de muitas meditações filosóficas de como se matar agora pensava nos efeitos de sua atitude, e se ele atingisse alguém na queda, alguém que não merecesse, um transeunte que estaria passando por ali de madrugada ou levando o cachorro para passear... E se ele matasse também o cachorro? Ele nunca se perdoaria no além morte se existisse um além morte... Estava frio e ventando, será que isso atrapalharia o percurso de sua queda? E se ele caísse em um toldo como já tinha visto em um vídeo e sofresse só alguns ferimentos? Ele seria aquilo que mais odiava um suicida incompetente... Ou se morresse de forma ridícula quando caísse? Qual seria a dignidade do ato? Se ele fosso indicado para o Darwin Awards... Parecia uma grande besteira, mas tudo isso passava pela cabeça conturbada, ele queria se matar, mas queria decência, ele não estava preocupado com os julgamentos, com sua família, com a Leninha, que ele tinha deixado a pouco tempo, ele se preocupava mais com seu peixe dourado,Herbert, animal típico de suicidas, que ele já o tinha superalimentado para caso de demorarem resgatá-lo.

Ele ainda estava indeciso, sua sorte é que era muito tarde e ninguém ficava reparando no alto dos edifícios, tudo que ele não queria, além das dúvidas, era uma aglomeração e ibope para sua morte. Ele já tinha pensado e repensado isso tudo, estava tudo resolvido, mas nos últimos momentos as coisas mudam, novas questões vem à mente, mais coisas entram em jogo, será que os incompetentes também tem esses lampejos? Seria ele um dos incompetentes? Ainda bem que se fosse, seria só ele e ele mesmo.

Ia desistir por hoje, tinha chegado muito perto, mas precisava reavaliar as coisas para tentar de novo amanhã, ver a rua, o local as possibilidades de acontecer algo fora de seu controle, talvez mandar o Herbert,seu peixe, para alguém antes de se matar e assegurar a vida dele.

E enquanto pensava nisso, virou-se para entrar de volta ao seu apartamento, e um golpe do destino o fez escorregar, sem premeditação, sem vôo rasante de cabeça, caiu como um boneco desajeitado, sem poesia, nem graça no seu planar patético, o corpo caia como uma massa desajeitada, Herbert teria de se virar sozinho... Dentro da cabeça de Will, não passava mais nenhum pensamento sobre a moral e a ética do suicidas, nos olhos arregalados dele passava a vida em um flash, uma vida ridícula e tão mais ou menos que foi o mesmo que um grande branco, um grande nada, ou melhor, um pequeno nada; e entre o balé cômico da queda, o corpo se aproximava do chão, nenhum toldo, nenhum fio de alta tensão, nada segurou seu crânio quando bateu com um som oco na calçada, seu sangue agora escrevia uma pequena linha na história daquela rua, e toda ética e a morte decente de Will escorria pelo meio fio e caia no esgoto, se juntando a todo lixo da cidade, ele não era um dos incompetentes...

escrito por cleiner micceno

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