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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Anno Zero - Noites brancas



Eu me senti  tantas vezes sozinho
Tantas vezes vil
Ao relento dos sentimentos
Buscando nas luzes da rua
Mortiças
Tantas vezes com frio
Seus olhos
Faiscando
Chamando
Meus olhos
Da miséria humana
Mortiços
Das noites mal dormidas
Das olheiras profundas
Dos vultos esquálidos
Dos seres que vagam
Sozinhos a noite
Que é sempre mais longa
E escura
Um túnel sem fim
Ilusório, sem sentido
Nem as lágrimas, nem a cicuta
Nem as dores, nem o vento frio da madrugada
Nem os amores vazios
Nessa decadência quase absoluta
Dos sentimentos
Dos desvarios
A dor pungente toma, sem pedir licença
Seu sono dormente
Te arrasta para o fundo
Do pesadelo insone
De estar vivo
Nesse
Mundo

Doente

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Turn Off


As ruas estão em chamas
Gasolina e querosene queimando
A fumaça levita seu fumo negro
Para os arranha-céus oblíquos
Grandes bocas soturnas
Devoram as pessoas, os passos e as passagens
Becos, lixo, escuridão
Dentes afiados, espectros medonhos
Brilham nas sombras , auscultam as almas
Poças negras, sangue velho
Jornais com más noticias
Uma mulher sem dentes vestida com uma bandeira
Um desfile junto às chamas
Uma dança ao redor da fumaça
Carros, prédios, escapamentos, fome
Movimento indiferente ao fogo e a fumaça
Lamaçal de piche
Cães latem na rua central
Os uivos são prenúncios da morte
Os ganidos prenunciam o embate das almas
Crianças seguram armas
Os esgotos transbordam
Merda e sangue se misturam a fumaça
A imundície sobe aos prédios
As grandes bocas vomitam sujeira
Asas cobrem a cidade
Gritos são encobertos pelo som das engrenagens
Moem-se corpos, ossos e palavras
Está na hora da colheita
Cabeças empilhadas, imagens de néon piscam incessantes.
Anúncios de promoções derretem nas vitrines
A insânia toma conta das ruas
Em gradativa dissolução
O mundo está em colapso
Os relógios param à zero hora
O mundo está atrasado
Um silvo alto e profundo toca na escuridão
Orelhas sangram, olhos sangram, as almas morrem uma vez mais
O fulgor da combustão não esmaece
O poder das chamas e da fumaça encobre o ar com putrefação e fuligem
Gargantas são destroçadas
Tudo é inútil
A polícia, a politica, as religiões, os pregadores de esquina
Todos são inúteis pesos mortos
Corrosão é a palavra de ordem
Vozes roucas regurgitam fumaça
Os dentes estalam nas bocas
Crânios chocam-se no concreto
Ossos estalam, quebram, dissolvem
O caos é apenas uma palavra
Papéis voam
Em chamas
Neles apenas palavras sem sentido
E entre as cinzas
Escorrem os últimos lapsos de sanidade
A hecatombe toda será fantástica
E dos escombros nascerá
Uma flor
Radiativa

Cleiner Micceno 8/06/2017 as 00:00

domingo, 4 de julho de 2010

Morre Roberto Piva - um dos poetas marginais brasileiros

Morre aos 72 anos o poeta Roberto Piva, grande nome da poesia marginal

04/07/2010

O poeta Roberto Piva / Divulgação

Um maiores nomes da poesia marginal brasileira, o poeta Roberto Piva morreu em São Paulo, no sábado, aos 72 anos. O escritor sofria de Mal de Parkinson e estava internado desde o dia 13 de maio no Instituto do Coração por conta de uma insuficiência renal, que evoluiu para uma falência múltipla de órgãos. De acordo com o, Piva foi cremado na manhã deste domingo no Crematório de Vila Alpina.

Leia o poema "Praça da República dos meus sonhos", de Roberto Piva

Veja trecho de programa com Roberto Piva, exibido na TV Cultura

Nascido em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937, Roberto Piva foi um poeta ligado aos marginais dos anos 60, tendo sido influenciado pelos autores da geração beat americana. Ele foi revelado na coletâneas "Antologia dos Novíssimos", de Massao Ohno, publicado em 1961, e "26 poetas hoje", de Heloisa Buarque de Holanda.

Piva foi professor na rede de ensino público, produtor de shows de rock e é um dos três únicos poetas brasileiros a ser citado no Dicionário Geral do Surrealismo publicado na França.

Em 2005, toda sua obra foi republicada pela editora Globo em três volumes - "Um estrangeiro na legião", "Mala na mão e asas pretas" e "Estranhos sinais de saturno". Seu primeiro livro, "Paranóia", publicado originalmente 1963, foi reeditado em 2009 pelo Instituto Moreira Salles.