sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Anno Zero - Boca

Acendi um cigarro
A fumaça desenhou
No ar
Uma pequena
Linha
Que quando saiu da boca
Ela
Não 
Era
Mais

Minha 

Cleiner Micceno

Anno Zero - Nós

Naquela noite falamos
E não dissemos nada
Nem sobre nós
Nem sobre o tempo
Que não dizíamos nada
Nem sobre o tempo
Que não tínhamos
Mais
Para
Desfazer 
Os

Nós


Cleiner Micceno

Anno Zero - Silêncio

Da rua vêm os gritos
Da urbe vem o brado
Dos carros ouço o urro
Da turba
Muda
O silêncio

De 
Um 
Prado 


Cleiner Micceno

Anno Zero - Olhos

Seus olhos
Vagos
Um pouco úmidos
Um pouco rasos
As lágrimas
Fluem
Como
Dois 
Verdes

Lagos

Cleiner Micceno 

Anno Zero - Traço

Vi pela janela
A sombra de mim mesmo
Ela passou lúgubre
Contando os passos
Seus olhos cansados
Me vi ali
Sem voz
Sem luz
Apenas um arremedo de mim

Apenas 
Um 
Traço

Cleiner Micceno

Anno Zero - Embate

Se desse instante gritei
Procurando algo que não sei
Se devia dispersar
Depender ou correr
Da vida ou morte
Que desejei
Ou perdi
O jeito
A hora
O embate
A vida ou a morte
Sem diferença
No coração
Que
Quase
Não

Bate


Cleiner Micceno

Anno Zero - Eu

Em minha vida naveguei
Nas velas, ao mar bravio
Pareceu
Que
Nem até ao fundo cheguei
Nem do mar

Nem 
Do
Eu

Cleiner Micceno

Anno Zero - Erros

Por tantos erros
Que cometi
Pensei nos acertos
Somei, multipliquei, dividi
Cheguei ao total
De erros tantos
Que suplantaram
Até mesmo

A mim



Cleiner Micceno - Madrugada de 11 de outubro

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Rogério Sganzerla - O abismo da marginália cinematográfica

No final dos anos 40 e durante os anos 50 bem no período pós-guerra a Itália se reconstruía social e culturalmente com o neorrealismo de Rossellini e Vittorio de Sica, com filmes que usavam como cenário a própria realidade, assim como atores amadores e pessoas do povo. E com inspiração nessa estética e nesses preceitos alguns cineastas como Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Rui Guerra, Carlos Diegues, entre outros, na década de 60, começam a tomar essas ideias e colocá-las em pratica com o velho bordão do Glauber Rocha “Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão” começa ai saga do Cinema Novo no Brasil, com obras como “Os Fuzis”, marco inicial de Rui Guerra, e "Deus e o Diabo na Terra do Sol" de Glauber Rocha. Um cinema de esquerda, contestatório e adaptado a realidade brasileira, mas mesmo assim ainda cheio de ranços e de cineastas que com o passar dos anos virariam a casaca, os ideais e suas raízes.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Café e cigarros

Café e cigarros



Ela saiu de casa cedo
Na mesa apenas um papel qualquer jogado
Em letras rápidas e trêmulas, poucas palavras:
“Vou indo, adeus... nos  vemos um dia desses”
Foi buscar novos caminhos, e eu apenas era a velha estrada...
Já trafegada e conhecida.
Ela precisava de novos ares e eu de oxigênio
Abri o jornal matutino, nada de novo
Um cigarro pendendo das mãos... é o que restava
Sobraram para mim apenas as lembranças.
A mesma cadeira, o mesmo espaço antes ocupado pela silhueta dela
A torneira que teimava em pingar mesmo com tudo isso
Na pia um copo; desses baratos, com restos de café...
Que ela tomou antes de partir para sua viagem.
Seus últimos restos mortais.
Visto um par de chinelos amarelados, rastejo até o sofá,
A janela ainda estava cerrada, provavelmente iria ficar durante o resto do dia.
Ligo a TV, nada além de besteiras, tomo um trago de qualquer coisa...
Acendo mais um cigarro, volto para cama
Entre uma tragada e outra, murmuro:

“Que tudo mais vá a merda...”

por Cleiner Micceno

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Versos de um cão


Quando procuro dentro de mim mesmo
Acho apenas indecisão, tristeza e talvez alguma comiseração.
Não sei se sou apenas eu ou o mundo ao redor
Que causa esse desatino , essa impotência , esse desamparo , de gente menor
Essa gente que é a minha laia, o meu pedigree, de cão sarnento de rua que pouco abala
Mas que gane, late e rosna, para todos, nesse beco miserável que se chama vida, ou o hiato antes da vala.
Não sei, apenas acho que o céu e o inferno, é apenas uma questão de ponto de vista
Que seja o defunto tardio, velho e cansado, com a poeira da vida, que não adere a morte por escolha , talvez por preguiça e seja essa a pista
Desse lamurio , desse descompasso, desse desassossego que sinto
E parto ao largo dessa coisa que chamamos de vida.
Nem alma , nem pós morte , os cães apenas latem de dor e da fome que os consome
Sobrevivem de birra no meio desse sonho insone
Buscando a próxima mordida, e a próxima lata, que derruba na sua calçada
Incomodando sua felicidade falsa, e sujando sua fachada ,
Nas minhas mordidas de cão sem alma, procuro tirar sua falsa comodidade
Com a espuma que deito de minha boca , demonstro a raiva que infecta e corrói sua vaidade

Cuidado com os cães sem dono,

Com os largados na rua, eles mordem as mãos dos desavisados
Essa hidrofóbica linha de sentimentos,
Que lacera o pescoço dos incautos
E mantêm o orgulho dos pulguentos.

por Cleiner Micceno

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

ESTREANDO MEU MAIS NOVO TRABALHO, "SEDE", curta metragem feito de forma independente, sobre vingança no tempo de escravidão. 

http://youtu.be/A0r58pwasPI